"... (...) não havia grande conversa entre as raparigas... (...) Seis anos antes, quando Matilda começara a vender flores, achara este silêncio desconcertante, mas agora compreendia-o. Cada uma delas tinha uma história de desgraça a contar... (...)"
"Às oito horas, Matilda dirigiu-se lentamente para Haymarket em direcção a Piccadilly. Achava esta zona de Londres interessante porque sofria grandes mudanças ao longo do dia. Agora, ao princípio da manhã, fervilhava com empregadas de balcão e homens de negócios que se apressavam para o trabalho, esquivando-se aos muitos varredores de rua e gente a vasculhar nos detritos. (...)" página 34
"... senhoras e cavalheiros que chegavam de carruagem e fiacre para almoçar e fazer compras... (...) torrentes de raparigas jovens e bonitas, com esperança de chamar a atenção de um cavalheiro. (...)... Matilda admirara e invejara estas raparigas, recém-chegadas da província, com as suas roupas modernas, botas delicadas e chapéus de fitas decorados com flores, mas ficou chocada quando por fim descobriu ... (...)" página 35
"... a criança avançava rapidamente... (...) Os instintos protectores de Matilda despertaram e ela começou a furar por entre as pessoas... (...) o som de cascos de cavalos e o tinido dos arreios fê-la virar a cabeça. (...) ...viu que ela tinha alcançado a berma do passeio, mas estava a bater palamas de excitação pois também vira os cavalos aproximar-se. Era demasiado pequena para se aperceber do perigo e era mais do que certo que desceria para a rua. (...)" página 36
"Matilda e Giles encontravam-se novamente à entrada do Castelo das Ratazanas. (...)
- (...)... Temos de ser pacientes. (...)
Nesse momento, Sidney surgiu da esquina sozinho.(...)
- Olá, Sidney - disse ela, pensando no que haveria de fazer se ele quisesse dinheiro. - Onde é que estão os outros?
- Ali atrás. - Acenou vagamente com o braço na direcção de uma viela. - Os mais velhos correram connosco do castelo ontem à noite.
- Bem, já não precisam desse sítio - disse ela, com um sorriso. - Hoje vão todos dormir numa cama autêntica.
Ele franziu os olhos. - O que é que tu ganhas com isto? - atirou-lhe. (...)
- Ver-vos a todos felizes e bem tratados ...(...)
- Porquê?
(...) - Porque tive uma vida dura quando era menina - respondeu. - Só melhorou quando o conheci - disse ela, apontando para Giles...(...) - Ele tirou-me da rua e levou-me para casa dele para olhar pela filha pequena. Agora queremos ajudar crianças como vocês.
A expressão dura de Sidney suavizou-se um pouco, mas era evidente que exigia mais persuasão. (...)
- (...) ... Sidney, se tens suspeitas, usa a cabeça. Há alguma coisa pior do que a maneira como vivem agora?
A expressão dura no rosto dele dissipou-se e ela não vui senão um rapazinho confuso. Assumira o papel de líder das crianças... (...) puxou-o para si, como costumava fazer com os irmãos. (...) Levantando-lhe o queixo com uma mão, encarou-o de frente. A cara dele estava tão imunda que era difícil ver por trás da sujidade, mas tinha olhos cor de âmbar muito bonitos. - Confia em mim, Sidney! (...) Ele encostou a cara ao peito dela e ela percebeu que ele estava a chorar. Preciso que acompanhesos pequeninos para ajudá-los a adaptarem-se. (...) Agora tens de ir buscá-los, dizer-lhes que não há motivo para ter medo. Daqui a pouco, estão todos sentados a comer a melhor sopa que já provaram.
Ele deu meia volta e largou a correr sem uma palavra. (...)
Então, quando estavam a olhar desesperadamente um para o outro, Sidney reapareceu, seguido pelo pequeno bando de crianças. (...) Estavam praticamente nuas, imundas, com os cabelos empastados, os braços e as pernas tão finos que era difícil imaginar como conseguiam andar, as caras tensas de medo e macilentas de fome. (...)" páginas 159, 160 e 161
Excertos do livro "Seque o Coração Não Olhes para Trás", da escritora Lesley Pearse
Tradução: Isabel Alves
Editora: Edições ASA II, S.A.
Edição: Novembro 2010
Tradução: Isabel Alves
Editora: Edições ASA II, S.A.
Edição: Novembro 2010
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